O cessar‑fogo atual expira no próximo domingo, mas já enfrenta dificuldades para se manter.
Por Redação, com RFI – Beirute
As negociações entre Israel e Líbano serão retomadas nesta quinta‑feira, em Washington, em meio a um cenário de forte instabilidade no sul libanês, violações do cessar‑fogo e pressão internacional por uma solução diplomática para o conflito. Às vésperas do encontro, o governo israelense endureceu o tom e cobrou uma atuação direta de Beirute contra o Hezbollah, grupo armado pró‑iraniano que atua no território libanês.

– Amanhã, as negociações diretas entre Israel e Líbano serão retomadas em Washington. Apelo ao governo libanês: vamos trabalhar juntos contra o Estado terrorista que o Hezbollah construiu em seu território – declarou o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, em discurso a diplomatas, durante uma cerimônia que marcou o 78º aniversário da independência do país.
Do lado libanês, a expectativa é evitar uma nova escalada militar. Segundo uma fonte oficial ouvida pela AFP, Beirute deve solicitar formalmente aos mediadores americanos uma prorrogação do cessar‑fogo por mais um mês, além da suspensão imediata dos bombardeios e das operações de destruição conduzidas por Israel em áreas onde ainda há presença militar.
O cessar‑fogo atual expira no próximo domingo, mas já enfrenta dificuldades para se manter. Nesta quarta‑feira, três pessoas morreram em ataques aéreos israelenses no Líbano, apesar da trégua em vigor. As autoridades libanesas afirmam que insistirão em uma adesão estrita ao cessar‑fogo como condição central para o avanço das negociações.
Soldados franceses
A tensão aumentou ainda mais com a confirmação da morte de um segundo soldado francês que integrava a Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil). O cabo Anicet Girardin, do 132º Regimento de Infantaria Canina, morreu em decorrência dos ferimentos sofridos na emboscada que, no sábado, já havia matado o suboficial Florian Montorio, no sul do país. Outros dois militares franceses ficaram feridos no ataque.
Em uma mensagem publicada na rede X, o presidente francês Emmanuel Macron afirmou que a França presta uma homenagem “profundamente comovente” ao militar morto e ao seu sacrifício. As autoridades francesas e a Onu atribuíram a emboscada ao Hezbollah, que nega envolvimento. Macron declarou que os soldados não foram atacados “por serem franceses”, mas por estarem cumprindo sua missão de apoio à população civil.
Este é o terceiro soldado francês morto desde o início do atual ciclo de violência no Oriente Médio, iniciado em 28 de fevereiro, com ataques aéreos israelenses e americanos e represálias do Irã contra alvos na região do Golfo.
Devastação
Enquanto as negociações diplomáticas avançam lentamente, os impactos humanitários no Líbano se agravam. De acordo com o Conselho Nacional de Pesquisa Científica do país, mais de 62 mil residências foram destruídas ou danificadas em cerca de seis semanas de confrontos. Segundo o secretário‑geral do órgão, Chadi Abdallah, foram registradas 21.700 casas destruídas e outras 40,5 mil danificadas em aproximadamente 45 dias de guerra.
A França tem buscado reforçar a via diplomática. Ao receber o primeiro‑ministro libanês Nawaf Salam em Paris, na terça‑feira, Emmanuel Macron afirmou que é necessário “dar tempo às negociações” e evitar a retomada dos combates. O presidente francês declarou que seu país ajudará o Líbano a se preparar para as conversas em Washington e pediu que as partes trabalhem em conjunto para consolidar uma trégua que classificou como frágil. Macron também apelou a Israel a renunciar a ambições territoriais no Líbano, saudando a retomada das negociações indiretas como um passo indispensável para uma paz duradoura na região.
Brasil
O governo brasileiro também se manifestou. Em nota divulgada em 17 de abril, o Itamaraty saudou o anúncio do cessar‑fogo no Líbano e reafirmou o compromisso do Brasil com a soberania e a integridade territorial libanesas. O texto conclama Israel a encerrar a ocupação no sul do país e a retirar todas as suas forças do território libanês.
O Brasil exortou ainda as partes a respeitarem integralmente os termos da trégua, garantirem a cessação permanente das hostilidades e viabilizarem o retorno dos deslocados internos às suas residências. A nota destaca a necessidade de cumprimento da Resolução 1701 do Conselho de Segurança da Onu, que pôs fim à guerra de 2006, e expressa a expectativa de que o diálogo mediado pelos Estados Unidos conduza a uma solução política abrangente, capaz de trazer paz e segurança à região.