Em um claro recado ao mandatário norte-americano, Donald Trump, Lula anunciou no seu discurso, em tom de campanha, que proibiu o ingresso no país do conselheiro da Casa Branca para o Brasil, Darren Beattie.
Por Gilberto de Souza – do Rio de Janeiro
A resposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à retaliação mais incômoda ao seu governo, que foi o cancelamento do visto de entrada nos EUA de Alexandre Padilha, ministro da Saúde e um dos principais aliados políticos do líder petista, aconteceu na manhã desta sexta-feira durante a reinauguração do setor de trauma do Hospital Federal do Andaraí, na Zona Norte da cidade.

Em um claro recado ao mandatário norte-americano, Donald Trump, Lula anunciou no seu discurso, em tom de campanha, que proibiu o ingresso no país do conselheiro da Casa Branca para o Brasil, Darren Beattie. Trata-se de um dos expoentes da ultradireita daquele país, diretamente alinhado com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, o filho ’03’, que hoje mora na Flórida (FL-EUA), após deixar o país com medo de ser preso.
Lula advertiu que, enquanto não houver a devolução do visto de Alexandre Padilha, da mulher, a atriz Thássia Alves, e da filha deles, Mel, o assessor não entrará no Brasil.
— Aquele cara (norte-)americano (Darren Beattie) que disse que vinha para cá para visitar o Jair Bolsonaro, ele foi proibido de visitar (Bolsonaro) e eu o proibi de vir ao Brasil, enquanto não liberar os vistos do meu ministro da Saúde, que está bloqueado — disse Lula.
Autoridades
Os vistos de Padilha e de sua família foram cancelados pelo governo Trump, em meio a uma série de represálias urdidas pelo filho ’03’ de Bolsonaro, em agosto do ano passado. A perseguição estende-se a outras autoridades brasileiras e ex-funcionários da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) que atuaram na contratação dos médicos cubanos no ‘Programa Mais Médicos’, do Ministério da Saúde.
— Não… você sabe que bloquearam o visto do Padilha, o visto da mulher dele e o visto da filha dele de 10 anos. Então, Padilha, esteja certo que você está sendo protegido — acrescentou o presidente.
O Itamaraty, em seguida, confirmou o cancelamento do visto de Beattie e explicou que a decisão ocorre por “omissão e falseamento de informações relevantes quanto ao motivo da visita”. Beattie pediu o visto na semana passada com a justificativa de estar no fórum de minerais críticos da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham, na sigla em inglês), na capital paulista, semana que vem.
Na cadeia
A agenda pública de Beattie, no entanto, citava um encontro com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a possível visita ao pai dele, na cadeia. O fato, para oficiais do corpo diplomático no entanto, demonstra má fé na conduta do solicitante ao passar informações duvidosas ao Itamaraty.
“Trata-se de princípio legal suficiente para a denegação de visto, de acordo com a legislação nacional e internacional”, afirmou o Ministério das Relações Exteriores (MRE), em nota.
Na véspera, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), já havia proibido a visita de Beattie, com base em consultas à Chancelaria brasileira. O chanceler Mauro Vieira confirmou que o encontro poderia configurar “indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro”.
Adversário
Segundo Vieira, as autoridades norte-americanas tinham requisitado duas reuniões no Ministério das Relações Exteriores, pedidas apenas na quarta-feira, e nenhum dos encontros fora confirmado pelo MRE.
Darren Beattie é um ferrenho adversário do governo Lula e do ministro Moraes, a quem chamou de “principal arquiteto do complexo de censura e perseguição” contra Bolsonaro. Beattie também recebeu, à época, os agradecimentos de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) por apoiar as sanções da Lei Magnitsky contra o ministro.
Na agenda, Beattie também esperava abordar as decisões judiciais que bloquearam perfis radicais na Rede X e no Facebook, investigados em inquéritos sobre as ‘fake news’, as milícias digitais e o chamado ‘Gabinete do Ódio’, sob a relatoria de Moraes, no STF.