Muitas foram as críticas ao convite feito por Lula a Fernando Henrique e a José Sarney para que o acompanhassem às cerimônias fúnebres em homenagem ao Papa João Paulo II. Mas o presidente agiu como agiriam os mais hábeis políticos da História. O melhor manual para explicar a habilidade de Lula é o pequeno e denso ensaio de Plutarco, "Como tirar vantagem do inimigo".
Foi o que fez Lula, que já conhece suficientemente a vida, para saber que o ex-presidente só pensa em desforrar-se do êxito que o operário vem obtendo na Chefia do Governo. Ao convidar Fernando Henrique, o presidente deu-lhe apenas duas saídas: aceitar ou recusar o convite. Se o recusasse, teria sido pior. Assim, não teve como não o aceitar.
A astúcia não é disciplina acadêmica, mas, sobretudo, conquista das dificuldades. Chegar à Presidência da República com uma família bem constituída, vinculada ao poder, boas escolas, e convenientes relações pessoais, é muito mais fácil do que sem esses privilégios de nascimento e destino. É esse o contraste forte entre os Srs. Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio da Silva. A astúcia de Lula não é uma deformação do caráter, mas sim, recurso de seu atribulado destino. Ela se contrapõe à esperteza - essa, sim, uma irmã bastarda da astúcia.
Os que estiveram presentes testemunham que Fernando Henrique se encontrava constrangido durante os eventos, e procurava esquivar-se das fotos. Foi necessário que o fotógrafo de Chirac o enquadrasse ao lado de Lula em uma das imagens divulgadas.
O presidente Lula comportou-se como um estadista acima das questões imediatas da política. Ao levar os dois ex-presidentes em sua comitiva, procurava conduzir o Brasil como um todo, não a facção política eventualmente no poder. Atuou da mesma forma ao convidar representantes de outras religiões, dentro do sentido ecumênico do Vaticano, depois da visão inovadora de João XXIII.
O ex-presidente levará algum tempo para refazer-se do arranhão de ponta de sabre, no golpe de esgrima de Lula.
Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, "Mar Negro" (2002).