Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

Os perigos do otimismo

Por Mauro Santayana - Nos EUA, começa a abrir-se espaço para que o Estado volte a exercer o seu papel reitor nas comunidades nacionais, e deixe de ser mero apêndice do mercado financeiro. Diante disso, não parece sensato retomar as privatizações e privilegiar o setor privado, mediante o eufemismo das PPPs. (Leia Mais)

Quarta, 05 de Janeiro de 2005 às 08:31, por: CdB

É normal que os chefes de governo se dirijam aos cidadãos, no início de um novo ano, com palavras de esperança, mas é conveniente que se acautelem de exagerado otimismo. O presidente da República, diga-se a seu favor, tem sido, nesse aspecto, muito mais comedido do que o seu antecessor.

Como se recorda, Fernando Henrique chegou a saudar a globalização e o neoliberalismo, como "um novo Renascimento". Hoje, tenta realizar cirurgia plástica em sua biografia, pregando o multilateralismo no espaço de que dispõe nos grandes jornais. Todos sabemos que foi o mais fiel servidor do unilateralismo de Washington, entre os governantes dos países emergentes. Nos mesmos artigos, sua ex-excelência pretende orientar o atual governo, com seus conselhos, depois de nos ter legado a corrupção do Banco Central, o crime organizado, a infra-estrutura em ruínas e a mais elevada dívida pública da História.

Debite-se a Lula excessivo otimismo apenas com relação aos investimentos estrangeiros e às Parcerias Público-Privadas, esse novo nome da privatização do Estado. Espera-se que tais parcerias não se consolidem, já que nada é definitivo no mundo - nem mesmo o mundo, como nos advertem as ondas do Índico e astrofísicos de renome.

A leitura dos jornais estrangeiros revela que o movimento de restauração do Estado cresce, até mesmo nos Estados Unidos. O novo Congresso, apesar da maioria maciça de republicanos, não parece tão dócil à Casa Branca quanto o anterior, e já se anunciam batalhas parlamentares em torno de problemas cruciais, no que se refere ao conflito entre mercado e Estado.

Há, entre os novos parlamentares ianques, movimento para a restauração de critérios éticos no Congresso e no Poder Executivo. Esse movimento, que envolve representantes dos dois partidos, está disposto a obstruir, e, ao negar os 60 votos necessários no Senado, impedir, que o presidente Bush venha a nomear outro ultraconservador para a Suprema Corte, na vaga do juiz William Rehnquist. Atual presidente do tribunal, Rehnquist foi nomeado por Reagan e teve papel decisivo no julgamento que favoreceu Bush, no caso da recontagem dos votos da Florida e se encontra gravemente enfermo.

A reação dos governadores, que não aceitam sobrecarregar os orçamentos estaduais com o corte dos recursos federais para a assistência médica (o Medicare) é outro fator político importante. O poder dos governadores sobre as bancadas estaduais no Congresso é muito grande, e lhes é possível coordenar o movimento de parcela das elites, que visa a conter Bush dentro dos limites do bom senso.

Um forte movimento de aposentados pressiona para impedir o desmonte da previdência social em favor da previdência privada, controlada pelos bancos. E - não se espantem - os norte-americanos, para repelir o projeto de Bush, se servem do desastroso exemplo do Chile, cuja reforma previdenciária foi determinada nada menos do que pelo famoso Consenso de Washington.

Sendo assim, começa a abrir-se espaço para que o Estado volte a exercer o seu papel reitor nas comunidades nacionais, e deixe de ser mero apêndice do mercado financeiro. Em um momento desses, não parece sensato retomar as privatizações e privilegiar o setor privado, mediante o eufemismo das Parcerias Público-Privadas.

Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, "Mar Negro" (2002).

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