Pela primeira vez, líder russo reconhece publicamente prejuízos gerados por investidas ucranianas. Após rejeitar proposta de Zelensky, ele diz aguardar mediadores dos EUA para conversas sobre o fim da guerra.
Por Redação, com DW – de Moscou
O líder da Rússia, Vladimir Putin, reconheceu pela primeira vez que seu país vem sofrendo “uma certa escassez” de combustíveis, após repetidos ataques ucranianos a refinarias de petróleo e outras instalações no território russo.

– Quanto aos ataques contra infraestrutura crítica em geral, e infraestrutura energética em particular, é claro que esses ataques às nossas instalações de infraestrutura criam problemas; isso é óbvio – disse Putin, em entrevista à emissora estatal Rossiya 1 divulgada pelo Kremlin no domingo. “No momento, estamos observando uma certa escassez, mas não é crítica.”
Putin disse que a principal tarefa agora é aumentar a capacidade de defesa antiaérea russa e garantir o fornecimento de combustível, principalmente para a Crimeia, que está sendo gravemente afetada pela falta de combustível, que levou o governo de ocupação russo a barrar a venda de gasolina para civis.
O líder russo também afirmou aguardar que uma equipe de negociadores dos Estados Unidos vá a Moscou para discutir o fim da guerra na Ucrânia, tão logo Washington não esteja mais tão ocupado com os conflitos no Irã e no Oriente Médio.
Cessar-fogo
Na entrevista, Putin disse que a Ucrânia propôs uma suspensão mútua dos ataques de longo alcance como um passo em direção à paz. Moscou, porém, viu isso como uma forma de aliviar a pressão sobre as forças de Kiev ao longo da linha de frente de 1.250 km entre os dois lados, e não se deixaria distrair por isso, disse o líder russo.
– É claro por que essa proposta está sendo feita; porque nossos contra-ataques em território ucraniano são muito mais fortes, têm maior impacto e são, francamente, mais destrutivos – disse.
– Dada a sua catastrófica escassez de pessoal, as Forças Armadas da Ucrânia aparentemente acreditam que isso poderia ser a sua salvação. Mas salvar o regime de Kiev não faz parte dos nossos planos.
O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, escreveu uma carta aberta a Putin neste mês propondo um encontro presencial, que o líder russo rejeitou.
Segurança
Na Península da Crimeia, anexada ilegalmente pela Rússia em 2014, autoridades locais declararam “estado de emergência” na última sexta-feira devido à escassez de combustíveis e aos cortes de energia provocados por ataques ucranianos às suas cadeias logísticas e instalações petrolíferas.
Pouco antes, em um discurso no congresso do partido Rússia Unida, Putin prometeu garantir a segurança e superar os desafios, enquanto a Ucrânia intensifica seus ataques retaliatórios em solo russo.
– Sim, vemos os problemas, estamos cientes e estamos reagindo a eles, mas certamente garantiremos a segurança tanto do país quanto de nossos cidadãos, bem como a inviolabilidade das fronteiras da Rússia – disse Putin aos membros do partido.
– Sem dúvida, superaremos todos os desafios que enfrentamos hoje, incluindo os ataques terroristas ao nosso território e infraestrutura – acrescentou.
Reação
O discurso de Putin ocorreu horas depois de um ataque de drone ucraniano ter matado uma pessoa na região de Krasnodar, no sul da Rússia, e provocado um incêndio em uma refinaria, segundo o governador regional Veniamin Kondratyev.
Zelensky classificou o ataque como parte das “operações que enfraquecem a capacidade da Rússia de travar esta guerra”.
– A refinaria de petróleo de Slaviansk, na região de Krasnodar, foi atingida, a cerca de 300 quilômetros da linha de frente. Também atingimos uma refinaria na região de Yaroslavl, a aproximadamente 700 quilômetros da nossa fronteira – disse Zelensky no domingo.
Na semana passada, outro ataque ucraniano causou um grande incêndio em uma refinaria a sudeste de Moscou, cobrindo os subúrbios da capital com densas colunas de fumaça preta.
A Ucrânia considera os ataques uma retaliação justa pelos bombardeios quase diários da Rússia contra civis ucranianos e infraestruturas de energia desde o início da invasão russa de seu território, em fevereiro de 2022.
Kremlin
– Esperamos que, após o término de todos os eventos, após a fase ativa na crise no Irã, vejamos a chegada dos representantes do governo americano com quem já nos reunimos repetidamente em Moscou – disse Putin ao abordar a possibilidade de negociações para pôr fim à guerra.
– Estamos prontos para continuar as negociações e discutir todos os detalhes – acrescentou, ao responder uma pergunta sobre o estado das relações russo-americanas após a cúpula do G7 na França, quando o presidente americano Donald Trump disse que a Rússia deveria “fazer um acordo com a Ucrânia”.
Na última quarta-feira, Trump disse que o Zelenska estava se saindo bem na guerra contra a Rússia, após ter afirmado anteriormente que ele não tinha “cartas na manga” para vencer.
Analistas dizem que a Ucrânia vem resistindo cada vez melhor no campo de batalha, mas suas cidades ainda são alvo de ataques russos mortais em um conflito que já dura mais tempo que a Primeira Guerra Mundial.