O Correio do Brasil, em parceria com a revista Caros Amigos, disponibiliza aos seus leitores, na íntegra, a entrevista publicada neste fim de semana, que contém a posição de um dos mais influentes líderes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. João Pedro Stedile reafirma o compromisso do MST com a democracia e com a luta pela Reforma Agrária.
Leia, na íntegra a entrevista.
Sociedade em Crise
E o doutor Olavo Setubal convidou João Pedro Stedile para um almoço no Centro Empresarial Itaúsa. O banqueiro por definição e o líder do MST. O perfeito conservador e o perfeito... Falta a palavra, cada leitor escolha.
O doutor Olavo gosta de conversar, inclusive, e talvez, sobretudo, com quem nutre idéias opostas às suas. Ou, pelo menos, divergentes. E o gauchão João Pedro, economista que decidiu abraçar as causas populares, não é de fugir da raia. Ninguém convenceu ninguém, é claro. Mas o visitante impressionou-se com os Portinari pendurados generosamente nas paredes, e com uma cachoeira interior, a borbulhar pelo caminho do restaurante do centro.
Não faltam a Stedile curiosidade e senso de humor. Até às gargalhadas, despertadas pela recordação de capa da revista Veja, de junho de 1998, que o apresentava em clima demoníaco, tanto na própria quanto em diversas páginas internas. A revista bateu na Itália, terra natal dos avós do nosso herói, e acabou nas mãos de administradores do município de Terragnolo, norte do Veneto. Empolgados, sem conhecimento do português e ao vislumbrarem ali a glorificação do focalizado, oriundo da vila, remetem convite para uma visita à Península, "Tudo pago", avisa Stedile, cujos traços, aos olhos das velhinhas de Terragnolo, evocam outros da estirpe, muito respeitada.
Nesta entrevista, o líder coloca pacatamente o seu MST diante da crise, e prevê dias difíceis para o próximo governo, quer Lula se reeleja, quer não. Dias conturbados para a sociedade brasileira em peso, assolada pela desigualdade crônica, e exposta à agitação de camadas insatisfeitas.
- Como o MST se coloca diante da crise, tanto em relação ao governo quanto em relação ao PT?
- A crise é muito mais grave do que a imprensa pretende. As denúncias de corrupção são apenas a ponta de um iceberg, que é a sociedade brasileira. A sociedade é que está em crise. Pelo lado econômico, o neoliberalismo não resolveu os problemas estruturais da economia brasileira. As taxas de crescimento, cantadas em verso e prosa pelo ministro Palocci, são medíocres, nós sempre estivemos abaixo da média latino-americana e da média mundial. E os níveis de investimento são os mais baixos de toda a nossa história. É também uma crise social, porque todos os indicadores pioraram. Sobretudo, o do desemprego. Nós encerramos o modelo de industrialização dependente com 2% ou 3%, 1 milhão e meio de trabalhadores desempregados, e agora estamos com 12 milhões de desempregados, somados os 15 milhões do trabalho informal. Dá 27 milhões de adultos da população economicamente ativa fora da força produtiva. Isso é gravíssimo, nós temos uma Argentina dormindo. E temos uma crise ideológica. Por quê? Porque as forças organizadas da sociedade não estão apresentando projetos alternativos para a sociedade. Não há debate na universidade, o neoliberalismo transformou os professores em um bando de cidadãos tíbios, que só pensam nos seus salários e nas suas carreiras acadêmicas. Eu nunca vi tanto individualismo quanto na universidade brasileira. Os partidos não discutem projetos, a imprensa brasileira é uma vergonha, não discute projeto algum, e os movimentos sociais nem têm obrigação de discutir projetos. Nesse contexto é que analisamos, muito perplexos, a situação do governo. Lula perdeu uma chance, ao ser eleito com 52 milhões de votos. De fato, embora ele tenha ascendido sem um programa, sem um projeto de sociedade, ele poderia ter estimulado o debate em busca de uma política econômica alternativa.