Capitães de milícia e torturadores da ditadura

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Publicado quarta-feira, 1 de julho de 2020 as 13:27, por: CdB

Jair Bolsonaro é o personagem mais notório que faz uma ponte entre as milícias do Rio de Janeiro e a repressão política dos anos de chumbo.

Celso Lungaretti, de São Paulo, editor do blog Náufrago da Utopia
Os milicianos e torturadores são uma constante ameaça

Por um lado, nos seus vários mandatos legislativos sempre as defendeu e enalteceu, afora ter com elas mantido ligações perigosas que ainda estão sendo apuradas pela Justiça e poderão, inclusive, custar-lhe o mandato.

Lixo do Ustra: será o único livro que ele leu até hoje?

.Por outro, até quando os olhos do Brasil inteiro estavam voltados para ele naquela grotesca sessão dominical de 2016 na qual a Câmara Federal autorizou a abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff, fez questão de elogiar um dos torturadores mais emblemáticos da ditadura militar, Carlos Alberto Brilhante Ustra..

Bolsonaro garante também haver colaborado com o Exército na operação para não capturar o revolucionário Carlos Lamarca na região de Registro em abril de 1970, mas, notório mitômano que é, ninguém sério leva a sério mais essa lorota. Os milhares de fardados que deixaram escapulir entre os dedos uma dezena de guerrilheiros combalidos, ao passarem vergonha, fizeram-no sozinhos. Seria o cúmulo precisarem da ajuda de um pivete de 15 anos como coadjuvante no vexame…
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Há, contudo, outro capitão célebre que entrelaça as milícias com os torturadores da ditadura militar: Aílton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães. Deste, contudo, as informações são escassas, talvez porque algum jornalista investigativo que tentasse ir fundo no assunto poderia acabar como o Tim Lopes….

Mas, a imprensa mesmo assim fez a lição de casa: os jornalistas Chico Otávio e Aloy Jupiara dissecaram muito bem o fenômeno em Os porões da contravenção — jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado, livro lançado em 2015 pela Editora Record..

Entrevistado pelo Brasil de Fato em 2019, Jupiara assim definiu o foco da obra:

“Quando ocorreu a decisão de diminuir ou acabar com a repressão política efetivamente (…) e, ao mesmo tempo, iniciar uma abertura política, os torturadores e o pessoal mais diretamente envolvido na repressão se sentiu traído pelo regime [militar]. E foram procurar outros espaços onde eles pudessem ter o mesmo poder de vida e morte que tinham.

Quem abriu esse espaço para eles foi o crime organizado, que naquele momento, no Rio de Janeiro, dominava a cidade. E foi o jogo do bicho que acabou fazendo uma aliança com esses grupos”.

Na árvore genealógica das milícias estão os grupos de extermínio e as bestas-feras dos porões da ditadura, explicou Jupiara:

“…Os grupos de extermínio, da década de 60, atuavam por si só, mas também atuaram a pedido de bicheiros. Desde essa época havia uma relação íntima entre esses grupos. Só foi se agravando….

…estava havendo uma redistribuição territorial pelo jogo do bicho. Até os anos 60 e início dos 70, a cidade era muito fracionada. Havia muitos bicheiros com áreas pequenas.

Surge uma geração nova, naquela época, formada, por exemplo, por Castor de Andrade, por Anísio Abraão David. Esse grupo começa a se articular para formar a cúpula do jogo do bicho, do crime organizado… Acontece uma guerra por conta disso”.

E, para travar guerras, nada melhor do que os especialistas no ofício:

“Aí se juntam as duas coisas. Os bicheiros já tinham seu grupo armado, baseado em policiais militares e civis, que vinham dos antigos grupos de extermínio.

Eles pegaram esses grupos e juntaram com os agentes da repressão. Os agentes militares possuem conhecimentos que os assassinos de aluguel não tinham. Era um conhecimento de organização, hierarquia e centralização.

Uma das pessoas que levou a essa noção e que ajudou a formar a cúpula foi o o capitão [Aílton] Guimarães [Jorge]. Ele não foi a única pessoa. Outros bicheiros foram recrutando outros elementos. Os policiais não tinham conhecimentos que o grupo militar podia dar para o jogo do bicho…

Foto rara do Capitão Guimarães

 …[tratou-se de um] processo de profissionalização que foi guiado por esse militares oriundos dos porões da ditadura, que contribuiu para mudança da territorialização do crime na cidade”.

UM DEPOIMENTO PESSOAL—O Capitão Guimarães é personagem também de outra história: a minha. Pois fui prisioneiro político e fui torturado na PE da Vila Militar, em que ele servia no terrível ano de 1970.

Foi no seu quartel que morreu assassinado, em novembro de 1969, o militante Chael Charles Schreier, 23 anos, companheiro de Dilma Rousseff na VAR-Palmares.

Guimarães foi citado nos testemunhos de outros presos como autor de alguns dos chutes e pontapés que causaram a morte de Schreier por “contusão abdominal com rupturas do mesocólon transverso e mesentério, com hemorragia interna”.

E estava também entre os quatro torturadores responsáveis pelo assassinato do meu companheiro e amigo Eremias Delizoicov (vide aqui).

Embora tivesse se formado como oficial de Intendência, ele fez questão de atuar na repressão política. Chegou a ser carcereiro de Vladimir Palmeira, preso no Congresso de Ibiúna da UNE e, logo após a assinatura do AI-5, comandou a equipe que foi prender Paulo Francis e Ferreira Gullar.

Em outubro de 1969 foi ferido na perna exatamente na operação que culminou na execução do Eremias (o qual, por sua vez, recebeu o exagero de 35 tiros e ficou tão desfigurado que os matadores nem conseguiram identificá-lo direito e o comunicado à imprensa saiu com o nome de José Araujo Nobrega, outro militante da VPR).

Isto lhe valeu a Medalha do Pacificador, com que foram agraciados os principais torturadores da época. Seu grande feito: deixar-se ferir como um amador e depois descarregar sua fúria num jovem de 18 anos que estava cercado e acabaria inevitavelmente sendo capturado.

Celso Lungaretti, editor do blog Náufragho da Utopia
Direto da Redação é um fórum de debates, editado pelo jornalista Rui Martins

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