Depósito milionário do Capitão Adriano em conta de Queiroz complica vida de Bolsonaro

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Publicado sexta-feira, 19 de junho de 2020 as 15:32, por: CdB

O ex-PM, preso na véspera no sítio do advogado Frederick Wassef, no interior paulista, é apontado como integrante da milícia e operador financeiro de um esquema criminoso instalado no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro.

Por Redação – do Rio de Janeiro

O Ministério Público do Rio de Janeiro apura a transferência do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, o Capitão Adriano — chefe do ‘Escritório do Crime’, grupo composto por ex-policiais militares, apontado como executor da vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes — de mais de R$ 400 mil para uma conta bancária do assessor do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e do primogênito, senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) Fabrício Queiroz.

O advogado Luiz Gustavo Botto Maia, ao lado da mulher de Queiroz, Márcia Aguiar, com a garrafa de cerveja na mão, e a mãe do Capitão Adriano, Raimunda: encontro arriscado
O advogado Luiz Gustavo Botto Maia, ao lado da mulher de Queiroz, Márcia Aguiar, e a mãe do Capitão Adriano, Raimunda, com a garrafa de cerveja na mão

O ex-PM, preso na véspera no sítio do advogado Frederick Wassef, no interior paulista, é apontado como integrante da milícia e operador financeiro de um esquema criminoso instalado no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. O comprovante do depósito milionário foi citado na decisão do juiz Flávio Nicolau, da 27ª Vara Criminal do Rio, que mandou prender Queiroz e a mulher dele, Márcia Oliveira de Aguiar, que está foragida da Justiça.

O Capitão Adriano foi morto em fevereiro deste ano pela polícia da Bahia, na zona rural do município de Esplanada. Ele foi citado no inquérito em curso no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPE-RJ) como companheiro de farda de Queiroz, no batalhão de Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio e, juntos, respondem por um homicídio.

Capitão Adriano

As ligações entre Adriano, Queiroz e a família do presidente Bolsonaro se desdobram, ainda, no fato de a ex-mulher do miliciano, Danielle Mendonça da Nóbrega, e a mãe dele, Raimunda Veras Magalhães, serem empregadas no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio. Ambas receberam, juntas, R$ 1 milhão em salários e devolveram ao menos R$ 202 mil em transferências identificadas para conta de Queiroz e outros R$ 200 mil ainda não identificados.

Os investigadores obtiveram dados de geolocalização a partir do rastreio do celular de Raimunda Magalhães. Ela nunca apareceu sequer por perto da Alerj, no período em que deveria exercer a função pública naquele local.

No pedido dos promotores à Justiça, que deflagrou a Operação Anjo — e visava ainda ex-assessores da Alerj, um servidor público e um advogado — o MPE-RJ apontou registros bancários de Queiroz que indicam que uma pizzaria administrada por Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano, e uma outra pizzaria administrada pelo próprio miliciano, transferiram R$ 69,250 mil para o suposto operador financeiro de Flávio Bolsonaro.

Influência política

“Não se pode perder de vista que no período de janeiro de 2016 a janeiro de 2017 foram efetuados 17 depósitos em espécie na conta corrente de Fabrício Queiroz, totalizando R$ 91.796, na agência Rio Comprido do Banco Itaú, localizada na mesma rua dos restaurantes administrados por Raimunda Veras Magalhães”, registra ainda a decisão de Nicolau.

O repasse de R$ 400 mil de Adriano para Queiroz foi revela outro elo na ligação de Queiroz com a milícia, no grupo que geria a parte econômica do grupo paramilitar. O outro aspecto destacado pelos investigadores é político e foi levantado a partir de suposta ‘influência’ exercida pelo ex-assessor entre os grupos de milicianos.

Em mensagens de Queiroz a mulher, Márcia Aguiar, ele promete “interceder pessoalmente” junto a milicianos em favor de um homem que pede sua ajuda após receber ameaças de milicianos no Itanhangá, também na Zona Oeste do Rio. Ainda segundo os investigadores, em dezembro de 2019 Queiroz, a mulher dele e o advogado Luiz Gustavo Botto Maia, também ligado ao filho mais velho do presidente teriam orientado a mãe do Capitão Adriano, a permanecer “escondida” e a não falar aos promotores

Assessora

Em seguida, Botto Maia seguiu para Astolfo Dutra, em Minas Gerais, onde se reuniu, no dia seguinte, com Márcia de Oliveira Aguiar, mulher de Queiroz, e Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano da Nóbrega. O encontro foi pedido por Raimunda nessa cidade.

“Amiga, o que você acha de vir aqui amanhã? Pessoalmente a gente resolve tudo. Você não acha?”, escreveu Raimunda para Márcia, antes do encontro. Também fora arrecadas mensagens que mostram que Márcia ficou levando recados de Queiroz para Adriano por intermédio de Danielle Nóbrega. Em uma mensagem antes do encontro, Márcia escreve a Queiroz que “depois que ela (Danielle) falar com o amigo, ela vai entrar em contato comigo”.

O magistrado também registrou que Botto Maia, alvo secundário dos promotores na Operação Anjo, “chegou à casa de Raimunda Veras Magalhães, em Minas Gerais, para acompanhar as comunicações com a esposa de Adriano Magalhães da Nóbrega”, que vem a ser Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, ex-funcionária de Flávio. Ela constou como assessora de Flávio durante dez anos entre 2008 e 2018.

Plano de fuga

O MP acredita que os “recados” entre os dois e a reunião foram momentos para a discussão de um plano de fuga para Queiroz e família.

“A análise do material apreendido demonstrou que os ora requeridos embaraçaram o regular andamento da investigação, com dinâmica estruturada, que envolveu atos de adulteração de provas, informações falsas nos autos, sonegação de endereços e paradeiros de investigados, além de possível envolvimento de Fabrício Queiroz com milicianos do Itanhangá e um plano de fuga organizado para toda a família do operador financeiro que contaria com a atuação do então foragido Adriano”, resumiram os promotores, no pedido de prisão de Queiroz.

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