Se a eleição fosse hoje, Lula estaria de volta ao Palácio do Planalto, mas…

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Publicado domingo, 7 de março de 2021 as 16:05, por: CdB

As sondagens à população, a exemplo desta divulgada por uma extensão do Ibope, o Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec), na véspera, apontam um fato desesperador para a tropa de ultradireita que cerca o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Por Gilberto de Souza – do Rio de Janeiro

Se o segundo turno das eleições presidenciais de 2022 ocorresse neste domingo e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fosse candidato, ele seria o escolhido para um terceiro turno, de quatro anos, à frente do Palácio do Planalto. A premissa, traduzida nas últimas pesquisas eleitorais quanto ao humor do eleitorado, no entanto, permanece cheia de inconsistências. Antes de avaliá-las, contudo, vale observar a densidade do sentimento absolutamente majoritário entre os brasileiros: de repulsa e ojeriza ao atual mandatário, tamanho nível de estupidez frente a parede de caixões que lhe cai sobre a cabeça, em meio à pandemia que o Brasil hoje lidera, no mundo.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta voltar à arena eleitoral e reúne condições para vencer o atual mandatário

As sondagens à população, a exemplo dessa divulgada por uma extensão do Ibope, o Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec), apontam um fato desesperador para a tropa de ultradireita que cerca o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Segundo a pesquisa, 50% dos entrevistados disseram que votariam com certeza ou poderiam votar em Lula se ele se candidatasse à Presidência; e 44% afirmaram que não o escolheriam de jeito nenhum. Bolsonaro, por sua vez, aparece com 12 pontos percentuais a menos no potencial de voto (38%), e 12 a mais na rejeição (56%). Sinal que o impressionante ‘ódio ao PT’ que fustigou a legenda nas urnas, em 2018, começa a esmaecer quando a lembrança dos tempos de prosperidade “jamais vistos antes na História”, de acordo com o bordão do líder petista, espelha o fracasso retumbante no desempenho dos atuais planos econômicos.

Além de não entregar o prometido ‘Estado liberal’, Bolsonaro e seu posto Ipiranga, o ministro da Economia, Paulo Guedes, são vagarosamente consumidos. Um pela insanidade e o outro pelo desespero. Não há um norte definido nas ações de governo e nem mesmo o auxílio luxuoso do Senado e da Câmara dos Deputados, controlados pela fração mais ordinária do Parlamento, é capaz de apontar o rumo para fora do pântano em que o país se encontra. A tábua de salvação do liberalismo, fragmentada por interesses conflitantes entre segmentos da própria direita, torna-se a pilha de gravetos que agora inflama as labaredas da crise. O que apenas alguns economistas e analistas de mercado observaram há algumas semanas, a ponto de elevar o dólar às casas vizinhas dos R$ 6, hoje aparece nas pesquisas de opinião. As notícias do desastre chegam ao domínio público.

Experiência

Não bastasse a condição econômica aviltante do país, no plano social a mulher de Cesar já não aparenta ser tão honesta assim. Seus filhos habitam mansões, beneficiam-se de ‘rachadinhas’ e lideram um falido esquema de ódio e notícias falsas, já identificado e em fase de investigação na Suprema Corte. A cada dia que passa, a espada fica mais perto do pescoço embora todos creiam, piamente, na impunidade salvadora dos conchavos políticos. Esquecem-se que, uma vez tornados párias pela concertação nacional que ora se organiza, tudo o que foi dito, e feito, servirá de provas contra eles no julgamento a que este governo será submetido, nas urnas ou nas barras dos tribunais. Preferencialmente, em ambos.

Diante do limbo para o qual o adversário de Lula escorrega, apenas dois anos e pouco depois de chegar à Presidência da República beneficiado por uma sentença do ex-juiz, ex-ministro e ex-amigo Sérgio Moro (absolutamente suspeita conforme agora se constata), o ex-presidente retoma os corações dos brasileiros que não suportam mais tanta iniquidade, tamanha sordidez e essa tempestade de ignorância que inunda o país. Se dependesse apenas dos mais de 70% dos eleitores dispostos a mudar os rumos da política nacional, Bolsonaro desceria a rampa aos pontapés. Aqui, todavia, é o Brasil: uma terra dominada por interesses difusos, onde a distância entre o preto e o branco presume uma miríade de tons cinzentos, compreendida apenas por profissionais tarimbados na arte do engodo e da dissimulação.

Embora Lula seja reconhecido, com todas as honras a que tem direito, como um dos melhores presidentes que esse país já conheceu e, ao que tudo indica, com experiência suficiente para não cair mais uma vez no conto do vigário aplicado pela mídia conservadora ou a ceder às pressões de um Parlamento capaz de eleger Eduardo Cunha (MDB-RJ) ou agora o seu imediato, Arthur Lira (PP-AL), ainda pesa sobre ele uma condenação. O julgamento excruciante a que foi submetido tem sido questionado, mas não foi anulado (ainda).

Sem chance

Dificilmente, o golpe de Estado que teve lugar em 2016, com apoio do ‘Centrão’, dos militares, dos ricos, dos grandes empresários, “com Supremo, com tudo”, conforme resumiu à época o lançadiço Romero Jucá (MDB-RR), planeja se abster das rédeas do país ou devolvê-las ao torneiro mecânico, de mão beijada. Ainda que os ministros do STF tenham se arrependido de compactuar com o colapso institucional que toma forma nos discursos do mandatário neofascista, e anulem o julgamento presidido por Moro, o suspeito, o Parlamento – se quiser – vota uma lei intempestiva, em três tempos, para manter o filho de Dona Lindu o mais distante possível do Planalto.

Se Lula — depois da falha catastrófica na formação de uma base política absolutamente comprometida com o câmbio de um sistema econômico controlado pelas forças de mercado para uma economia de fundo socialista — ainda quiser a chance de chegar às urnas, precisará usar cada minuto do tempo que lhe resta na formação de um Parlamento com maioria absoluta para as forças de esquerda. Até mesmo agora, caso o ‘Centrão’ e a centro-direita percebam que Bolsonaro é caso perdido e o remédio menos amargo será vê-lo pelas costas, há chance de que a candidatura do ex-presidente seja legalmente garantida e, desde já, passe a negociar uma transição mais amena até 2022. Assim o mesmo nos quartéis e no Poder Judiciário.

Mas será preciso coragem, e fôlego, para enfrentar o conglomerado da mídia conservadora, o poder econômico dominante, e se manter de pé, firme, nas ruas. Precisará ser um gigante para se definir como a alternativa decisiva dos eleitores brasileiros e encerrar o ataque frontal à democracia brasileira. Aquele iniciado no momento em que a presidenta Dilma Rousseff (PT) foi indo, foi indo, e acabou transferida do Palácio da Alvorada ao seu apartamento, em Ipanema, sem um pingo de culpa por qualquer ato de responsabilidade. Mas legada ao passado de um governo que se afastou tanto de sua base eleitoral que terminou náufrago da ilusão de que, um dia desses qualquer, usaria black tie.

Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do jornal Correio do Brasil.