Mataram brasileiros ‘como quem extermina porcos’, afirma colunista sobre relatório da CIA

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Publicado sexta-feira, 11 de maio de 2018 as 16:18, por: CdB

“Decidiam matar brasileiros às centenas; como quem extermina porcos, galinhas, os jovens brasileiros mais preparados, inteligentes; cultos, porque divergiam no pensamento e na ideologia”. O comentário é da jornalista Hildegard Angel, sobre relatório da CIA.

 

Por Redação – do Rio de Janeiro

 

Um relatório secreto da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês), que tem chegado ao conhecimento público nas últimas 48 horas, em partes, revela que os dos generais Emílio Garrastazzu Médice e Ernesto Geisel, chefes da ditadura civil-militar que assolou o país por duas décadas, autorizavam — pessoalmente — a execução de prisioneiros políticos.

Ernesto Geisel, segundo relatório da CIA, mandou matar prisioneiros políticos
Ernesto Geisel, segundo relatório da CIA, mandou matar prisioneiros políticos

“Decidiam matar brasileiros às centenas; como quem extermina porcos, galinhas, os jovens brasileiros mais preparados, inteligentes; cultos, porque divergiam no pensamento e na ideologia. E ainda há quem queira o retorno dos militares ao poder”, resume a jornalista Hildegard Angel, filha e irmã de vítimas dos assassinatos determinados por comandantes do regime militar.

Os documentos históricos foram encontrados em pesquisa do professor de Relações Internacionais da FGV Matias Spektor. “Este é o documento secreto mais perturbador que já li em vinte anos de pesquisa”, descreveu, em publicação na sua rede social.

Memorando da CIA

Geisel, que governou o país entre 1974 e 1979, autorizou que o Centro de Inteligência do Exército (CIE) desse continuidade à “política de execuções sumárias”, segundo os documentos. O procedimento foi adotado durante o governo de Garrastazu Médici. As ações eram coordenadas, diretamente, a partir do Palácio do Planalto, via Serviço Nacional de Informações (SNI).

A informação consta de um memorando da CIA, enviado em abril de 1974 por William Egan Colbim, diretor da agência; entre 1973 e 1976. O destinatário era o então secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger. Nele, descreve o encontro entre Geisel, que acabara de assumir a Presidência, em 15 de março de 1974; os generais Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton de Paula Avelino.

Estes últimos era, respectivamente, o ex-chefe e o novo chefe do Centro de Inteligência do Exército (CIE); alé do general João Baptista Figueiredo, então chefe do SNI. Posteriormente, também se tornaria presidente.

Execuções

Na reunião, segundo o memorando, o general Tavares de Souza expôs o trabalho feito pelo CIE durante o governo Médici. Destacou, por conseguinte, os métodos adotados para conter o que chamou de “ameaça subversiva”. Ele fazia referência aos grupos de resistência política que atuaram no Brasil; durante a ditadura militar.

Geisel, diz o memorando, comenta que essa política de execução é “potencialmente prejudicial” ao regime. E pede para pensar sobre o assunto durante o final de semana, mas acaba autorizando que as execuções continuem.

“O presidente e o general Figueiredo concordaram então que, quando o CIE deter uma pessoa que se enquadre nessa categoria, o chefe do CIE irá consultar o general Figueiredo, cuja aprovação precisa ser dada antes que pessoa seja executada”, diz o memorando, assinado por Colby.

Verdade

O documento, desclassificado em 2015, foi tornado público na véspera por Spektor. Uma cópia do memorando foi publicada em uma série do Departamento de Estado sobre as relações exteriores norte-americanas; na década de 1970.

Dois parágrafos, o primeiro e o quinto, não foram desclassificados. Seguem omitidos no texto.
Não é possível, portanto, identificar, pelo memorando enviado a Kissinger, qual foi a fonte das informações.

As Forças Armadas ainda têm dificuldades em admitir a existência de assassinatos; torturas e desaparecimentos como uma política de Estado, durante os 21 anos de ditadura militar. A primeira admissão oficial foi feita em 2014; em ofício assinado pelo então ministro da Defesa, Celso Amorim. O documento foi encaminhado à Comissão Nacional da Verdade.

Ditadura militar

“Nesta perspectiva, o Estado Brasileiro, do qual este ministério faz parte, por meio das autoridades legalmente instituídas para esse fim; já reconheceu a existência das lamentáveis violações de direitos humanos ocorridas no passado. E assumiu sua responsabilidade pelo cometimento desses atos”, diz o ofício, com a chancela do hoje candidato ao governo do Estado do Rio, na legenda do PT.

O documento foi uma resposta a questionamentos da CNV sobre investigações internas das três forças. Estas haviam concluído que não aconteceram torturas e mortes em dependências militares; durante o regime de exceção. Foram, portanto, desmentidas publicamente.

Em resposta a um pedido de comentário formulado pela agência inglesa de notícias Reuters, o Centro de Comunicação Social do Exército disse que “os documentos sigilosos, relativos ao período em questão e que eventualmente pudessem comprovar a veracidade dos fatos narrados foram destruídos; de acordo com as normas existentes à época”.

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