Dias contados para a implosão do governo Bolsonaro, em um novo escândalo nacional

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Publicado segunda-feira, 3 de junho de 2019 as 22:51, por: CdB

Os promotores do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPE-RJ) descobriram, nas últimas semanas, que os principais integrantes da família presidencial abrigavam funcionários “fantasmas”.

 

Por Gilberto de Souza – do Rio de Janeiro

 

A República brasileira, desde o término da abertura lenta e gradual para a saída negociada de uma renitente ditadura militar, parece fadada a perecer sob o signo da mediocridade. Caiu José Sarney, após seus fiscais explodirem com os preços, na inflação mais agressiva em um século. Não sem antes distribuir concessões de rádios e TVs, a torto e a direito.

Flávio Bolsonaro e agora seu irmão, o 02, são suspeitos de contratar funcionários fantasmas em seus gabinetes, ao longo de quase uma década

Flávio Bolsonaro e agora seu irmão, o 02, são suspeitos de contratar funcionários fantasmas em seus gabinetes, ao longo de quase uma década

A década de 90 teve início com Fernando Collor, que sequestra a poupança e cai, logo adiante, por conta de uma FIAT Elba. Abre-se uma raríssima exceção ao finado presidente Itamar Franco, que, na época, ocupava a Vice-Presidência. Democrático, digno e o jeito mineiro de governar das Alterosas, no estilo Juscelino Kubitscheck; Itamar Franco termina seus dias em uma confortável carreira diplomática, após deixar o Plano Real entre os principais pontos de seu legado.

O sucessor, Fernando Henrique Cardoso (FHC), consegue então, em oito anos, reduzir a economia brasileira aos frangalhos aos quais está volta, agora, 16 anos depois. Sai com pecha de corrupto, acusado de comprar a reeleição, no Congresso, com propinas distribuídas aos parlamentares. Muitos deles continuam em seus mandatos, até hoje, aliados ao neoliberalismo.

Conservadores

Em um raro momento de lucidez, no raiar do novo milênio, os eleitores brasileiros elegem o primeiro presidente de centro-esquerda, depois de Jango Goulart, que pereceu sob o jugo dos ditadores. Estabelece parâmetros completamente novos de gestão do Erário e retira da miséria e da pobreza extrema um número jamais visto de seres humanos, na História Moderna. Embora permanecesse na esfera capitalista, tornou-se um perigo às classes dominantes.

Luiz Inácio Lula da Silva entrega o governo à sucessora, a presidenta deposta Dilma Rousseff (PT). Ela consegue, após seis anos de tropeços e decisões covardes no enfrentamento à ultradireita, que já despontava no cenário eleitoral, deixar o Planalto ao sucessor, Michel Temer.

Este, por sua vez, tenta a entrega absoluta e negociada do governo ao grupo político que, na era FHC e nos flertes de Rousseff com conservadorismo, dominava os Três Poderes. Queria garantir a permanência destes, a qualquer preço. Acabou preso, acusado de liderar uma quadrilha e desviar mais de R$ 3 bilhões dos cofres públicos. Foi solto em seguida, mas ainda responde a processos abissais de corrupção.

Quem segue preso, no entanto, é o ex-presidente Lula. Encamisado em uma teia jurídico-política, o líder petista é impedido de concorrer à reeleição certa e vence a disputa o capitão expulso do Exército por indisciplina e traços psicóticos em seu perfil. Jair Bolsonaro assume o comando e, em questão de semanas, investigações federais apontam evidências de que seu destino, na Presidência da República, tende a ser breve.

Recessão

Nos últimos fatos apurados, os promotores do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPE-RJ) descobriram, nas últimas semanas, que os principais integrantes da família presidencial abrigavam funcionários “fantasmas”; além de indícios robustos de desvios de dinheiro público e enriquecimento ilícito. Os fatos ocorrem em meio à brutal queda nos índices econômicos, com o país que se encaminha para mais uma recessão.

Segundo relato dos promotores, vazado para a mídia conservadora — que abandona Bolsonaro à própria sorte, após ajudar a elegê-lo — dois ex-funcionários ligados a Fabrício Queiroz, ex-assessor do então deputado Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), hoje no Senado, eram empregados do do vereador carioca Carlos Bolsonaro (PSC), o filho ‘número 2’ do presidente. Eles nunca emitiram crachá funcional ou registraram entrada como visitantes na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, aponta a investigação.

Por norma, a Câmara de Vereadores determina que qualquer servidor da Casa precisa fazer uma das duas coisas para comprovar a frequência, ainda que exerça funções externas – um deles era motorista.

Outros documentos, desta vez obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, mostram que Claudionor Gerbatim de Lima e Márcio da Silva Gerbatim, investigados pelo MPE-RJ, passaram o período em que estavam lotados no gabinete do 02 sem atestar presença no sistema da Câmara.

‘Rachadinha’

“Se for servidor da CMRJ, para qualquer função que exercer, deverá utilizar o crachá funcional”, assegura a Câmara, em nota pública. “Para nomeado para cargo em comissão ou efetivado via concurso público, o crachá funcional será emitido para acesso às dependências do Legislativo, seja qual for a atividade a ser exercida”, acrescenta.

Claudionor e Márcio tiveram sigilos bancário e fiscal quebrados na investigação que apura suposto esquema de lavagem de dinheiro no gabinete de Flávio Bolsonaro, entre 2007 e 2018, pela suposta prática da “rachadinha”, por meio da qual assessores “fantasmas” devolvem parte do próprio salário para o parlamentar que os nomeou.

A ligação entre os irmãos Bolsonaro teria ficado evidente no fato de que aqueles servidores já estiveram lotados em gabinetes na Alerj, quando Flávio era deputado estadual, e na Câmara municipal, com o 02.

A questão torna-se ainda mais medíocre diante do fato de que Claudionor e Márcio são, respectivamente, sobrinho da atual mulher de Fabrício Queiroz e o ex-marido dela. Queiroz continua no centro da investigação sobre repasses suspeitos na Alerj. Ele era, oficialmente, motorista de Flávio, quando movimentou em sua conta cerca de R$ 1,2 milhão entre janeiro de 2016; e o mesmo mês do ano seguinte.

Bomba-relógio

O Tijolaço desta segunda-feira, página do jornalista Fernando Brito, secretário de Comunicação Social do ex-governador Leonel Brizola, no Rio de Janeiro, replica um extenso relato da vida da família Valle, da qual faz parte Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher do presidente Bolsonaro.

“Não teriam interesse algum se a família Valle não tivesse nove parentes contratados no gabinete dele e de Flávio Bolsonaro, no período em que este foi deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro”.

“Aparentemente, trata-se de gente com vida modesta, até com dificuldades para sobreviver, unidos apenas pelo fato que nunca foram, de fato, assessores de coisa alguma. Dificilmente pode ter embolsado tudo sem fazer nada, durante anos, sem ter enriquecido. Uma década recebendo quase R$ 9 mil, morando nos fundos da casa dos pais e tendo de fazer faxinas para viver?”, questiona Britto.

E resume: “Que é uma bomba-relógio, todos estão vendo. Que vai estourar, também. Só resta saber o seu potencial destrutivo”.

Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do diário Correio do Brasil.

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