Espírito patriótico – A agenda nacional perdida pela esquerda

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Publicado segunda-feira, 5 de novembro de 2018 as 16:01, por: CdB

O liberalismo nunca carregou um espírito democrático em seu seio. A democracia é uma conquista dos trabalhadores à base de muito sangue. Ou não seria verdade, segundo Engels, que o socialismo é parte da “batalha pela democracia”?

 

Por Elias Jabbour – do Rio de Janeiro

 

O que mais me envergonha não é somente o desprezo de Bolsonaro, e de amplas parcelas das classes médias e dos ricos do país, para com os pobres e negros.

O novo ministro brasileiro da Ciência e Tecnologia, astronauta Marcos Pontes, é favorável à 'hard science'
O novo ministro brasileiro da Ciência e Tecnologia, astronauta Marcos Pontes, é favorável à ‘hard science’

Em termos marxistas, trata-se de uma questão nada moral. Esse desprezo é parte integrante da superestrutura do poder no Brasil, com raiz em nossa formação social. O desprezo pela democracia é mais “natural”. Nenhum milionário ou bilionário no mundo gosta muito desta prática, apesar de achar útil sua utilização quando lhe convém.

‘Hard science’

O liberalismo nunca carregou um espírito democrático em seu seio. A democracia é uma conquista dos trabalhadores à base de muito sangue. Ou não seria verdade, segundo Engels, que o socialismo é parte da “batalha pela democracia”?

A hipocrisia sem limites e o “lusco fusco” da “democracia” defendida pela Casa Grande bolsonarista não está somente na possibilidade de implantação de um estado terrorista no Brasil com as favelas se transformando em verdadeiros bantustões dentro das grandes cidades. Aliás, foi para isso que milhões de brancos e arremediados (racistas e hipócritas) foram às ruas empunhando a bandeira nacional contra a “corrupção”.

O pior virá, certamente. Tenho conversado muito sobre isso com meus amigos e minha companheira, Michelle. Estamos todos apreensivos, evidentemente.

Em meio a tudo isso, soma-se a vergonha de ver quem defende os “valores pátrios” contra os “vermelhos” dar sinal positivo à continuidade da entrega do barril do petróleo extraído do pré-sal por alguns centavos de dólar (um crime de alta traição nacional passivo de pena de morte em alguns países “civilizados”, como os EUA); a destruição de nosso programa espacial e entrega da base de Alcântara aos EUA e o esmiliguamento da ciência nacional anexa a tudo que eu chamo de “hard science”.

Massa conservadora

Tudo dentro do guarda-chuva do alinhamento incondicional à Grande Guerra atual travada pelo “nosso” aliado Estados Unidos contra a China socialista. Tratar-se-a de um governo reacionário e antipatriotico em todos seus aspectos.

Este quadro, apesar de superficial, é suficiente para desmarcar uma agenda capaz de reagrupar a esquerda como núcleo de um grande pacto nacional contra o entreguismo e a rapinagem estrangeira à qual estará submetida o governo Bolsonaro.

A esquerda brasileira, por mil razões, perdeu a liga com a agenda nacionalista e patriótica com um custo político e estratégico altíssimo em pról de uma justa agenda social (agenda vazia quando descolada da centralidade da questão nacional e patriótica) e preferindo travar uma disputa de valores culturais e morais, campo de excelência do inimigo, redundando em colisão com valores típicos de uma massa que em média é conservadora, católica e “self made man”.

Uma agenda fabricada pelo Departamento de Estado dos EUA e importada pela esquerda brasileira em sua maioria.

Oligopólios

Enfim, milhões de artigos e análises tem sido escritos sobre nossa derrota. Praticamente nenhum deles com um conteúdo que coloque no centro a questão nacional. Será que os intelectuais de nosso campo político foram raptados por uma agenda “globalizante”, mesmo quando a tendência mundial (desde a década de 1990!!!!!!!) é o de crescente guerra de capitais acelerada na década de 1990 e elevada à décima potência desde 2009, tendo os Estados Nacionais como autores principais desta guerra?

A esquerda brasileira, em sua “autocrítica” não estaria repetindo história semelhante àquela do bater dos sinos que separou a economia liberal clássica pela, denunciada por Marx, “economia vulgar”? Vulgar, hoje, por ser incapaz de perceber a verdade concreta mesmo diante de toda e qualquer evidência; sendo a principal delas a relacionada com a validade empírica de um mundo onde só se sobrevive quem mantiver projetos nacionais de longo alcance.

Projetos cuja alma se constitui na construção e existência de grandes oligopólios nacionais baseados em poderosos braços financeiros, também nacionais.

Voltarei a este assunto.

Elias Jabour é professor de Economia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

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